quinta-feira, 6 de agosto de 2009

AMOR SEM CORRENTES


Em seu livro, "O Profeta", Kalil Gibran fala do matrimónio com grande sabedoria. Vamos comentar algumas frases a fim de retirar delas ensinamentos úteis.

Referindo-se ao casal, diz Gibran: "amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão". Desconhecendo ou ignorando essa importante orientação, muitos casais transformam o amor em verdadeiras cadeias para ambas as partes. O amor deve ser espontâneo. Não pode ser motivo de brigas e exigências descabidas. O amor compreende: não deve se constituir em grilhões que prendem e infelicitam. Por vezes, em nome do amor, nós queremos que nosso companheiro ou companheira faça somente o que julgamos por bem. Só corta o cabelo quando permitimos. Só pode usar as roupas que aprovamos. Só sai se for em nossa companhia e não pode violar as regras estabelecidas pelo nosso egoísmo, para evitar brigas. Isso não é amor, é prisão. Amar sem escravizar, eis o grande desafio.

E o Profeta aconselha: "dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço. Isso significa dizer que devemos compartilhar, ser gentil, dar do nosso pedaço, mas sem exigir nada em troca. É comum depois da gentileza vir a cobrança. Fazemos um favor e esperamos logo alguma recompensa. Pretendemos tirar alguma vantagem. Dividir o pão, sim, mas não comer do mesmo pedaço. Isso quer dizer deixar ao outro o direito que lhe cabe do pedaço. E Gibran continua: "cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho".

É importante compartilhar, mas saber respeitar a individualidade um do outro, sem invadir a intimidade da pessoa amada. Há pessoas que, se pudessem, controlariam até mesmo o pensamento do seu par, a ponto de torná-lo a sua própria sombra. Isso não é amor, é extremado desejo de posse.

Mais uma vez Kalil Gibran aconselha: "vivei juntos, mas não vos aconchegueis em demasia, pois as colunas do templo erguem-se separadamente, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro." Grande ensinamento podemos retirar daí, pois a comparação é perfeita. Viver juntos, mas cada um respeitar o espaço do outro. O lar é um templo que deve ser sustentado por duas colunas: cada uma na sua posição para que realmente haja apoio. Se as colunas se aconchegam em demasia, o templo pode desabar. Por isso o profeta recomenda: "vivei juntos mas não vos aconchegueis em demasia." O amor tem por objetivo a união e não a fusão dos seres. Não se pode querer viver a vida do outro, controlar os gostos e até mesmo os desgostos da pessoa com quem nos casamos. É preciso que cada um cresça e permita o crescimento do outro, sem fazer sombra um para o outro. Se os casais observassem esses pequenos mas eficientes conselhos, certamente teriam uma convivência mais harmônica e mais agradável.

Pense nisso!

O verdadeiro amor é aquele que compreende, perdoa, renuncia. Em nome do amor devemos estender a mão para oferecer apoio e não para acorrentar. Quem ama propicia segurança, confiança e afeto. Lembre-se de que a pessoa com quem você convive não lhe pertence. É uma alma em busca do próprio aperfeiçoamento, tanto quanto você. Lembre-se também que beijos e abraços só têm valor se não forem cobrados. E, por fim, guarde a recomendação do profeta: "Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão".

(Gibran Kalil Gibran)

LAÇOS REDENTORES


(Resposta a um amigo que nos questionou, com relação à ofensa e ressentimento).
Ressentimento não vale.
A justiça não se atrasa
E a lei da Reencarnação
Atua dentro de casa.

Olhe o caso de Cristina,
Envenenou João Gamela,
Mas João, depois de algum tempo,
Renasceu... E é filho dela.

Embora a morrer em sangue,
Neca abateu Genserico;
Hoje são gêmeos em luta
Na roça do Tico-Tico.

Furtando-lhe sítio e casa,
Quinquim matou Rui da Venda,
Mas Rui nasceu neto dele,
A fim de herdar-lhe a fazenda.

Quintino arrasou Gregório
Com bebida numa festa...
Gregório voltou a ele,
É o caçula que o detesta.

Em não querê-la por nora,
Teotônio acabou com Lica,
Vejo a moça reencarnada:
É a neta que o prejudica.

Nina induziu Vaz à morte,
Suicídio triste sem causa,
Hoje ele é o filho doente
Que ela carrega sem pausa.

Lula matou Antonio,
Simples paixão de mulher...
Mas Antonio renasceu...
É o filho que não a quer.
Téo levou Juca ao suicídio.

Eis que o tempo vem e vai.
Juca hoje é o filho dele,
Um filho que odeia o pai.
A Terra lembra hospital
Se a vemos de ânimo atento,
Levantam-se muitos lares
Por celas de tratamento.

Ressentimento, desforra,
Não adiantam, rapaz,
A vida cobra com juros
As contas que a gente faz.

(Cornélio Pires)

O BEM QUE SE FAZ


Quando a ingratidão te bater à porta, não digas: nunca mais ajudarei a ninguém!

Quando a impiedade daqueles a quem beneficiaste chegar ao teu lar, não exclames: para mim, chega!

Não sofras e nem te arrependas de ter ajudado. Nem reclames: e eu que lhes dei tudo!

Não retribuas mal por mal, pois que assim, vitalizarás o próprio mal.

O bem que se faz a alguém é sempre luz que se acende na intimidade.

Naturalmente, gostarias de receber gratidão, amizade, compreensão.

Todos apreciamos experimentar os frutos da gratidão.

Pensa que a árvore jamais pergunta a quem lhe colhe os frutos para onde os carregará ou o que pretende fazer deles.

Ela se felicita por poder dar. Por se multiplicar através da semente que, atirada ao solo, o abençoa com novas dádivas de alegria.

Segue-lhe o exemplo.

Teus frutos bons, que produzam bons frutos além... Tuas nobres tarefas, que se desdobrem em tarefas superiores mais tarde.

Fica com a alegria de fazer, de doar. Nunca com a idéia de colher reconhecimento ou gratidão. Porque esperar gratidão pode ser também uma espécie de pagamento.

Sê tu sempre grato, mas não esperes pelo reconhecimento de ninguém. O bem que faças, viajando sem parar em muitos corações, espalhará luz no longo curso da tua vida.

Amanhã ou depois, nos caminhos sem fim do futuro, mesmo que não o saibas ou que o tenhas esquecido, esse bem te alcançará, mais formoso, mais fecundo.

Assim, prossegue ajudando sempre. Observa como age a natureza: O rio não cogita de examinar as bênçãos que conduz em suas águas, nem interpela o solo por onde segue.

Deixa-se jorrar, beneficiando a terra, a agricultura, as gentes.

O perfume, bailando no ar, nada pede para se espalhar até onde possa.

O grão não espera nada, além de ser triturado, para se converter em alimento.

O sol não escolhe lugar para visitar com luz, calor e vida.

A chuva não tem preferência por onde espalhar vitalidade.

Todos cooperam em nome da divindade, sem exigências e sem reclamações. São úteis e passam. Nada esperam, nada impõem. Age desta forma, tu também, e transforma-te num cálice de bênçãos, servindo sempre.

Se a tristeza te visitar a alma, ante a ingratidão de tantos a quem doaste o que possuías de melhor, recorda o mestre de todos nós.

Ele disse que estava no meio de nós, como aquele que serve.

E, tendo derramado o seu amor, plenificando de vida a todos os que dele se aproximaram, recebeu na hora extrema a ingratidão do abandono.

Mesmo assim, até hoje ele prossegue, convidando: vinde a mim.

Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

Ninguém vai ao pai senão por mim.

O GRANDE PRÍNCIPE


Um rei oriental, poderoso e sábio, achando-se envelhecido e doente, reuniu os três filhos, deu a cada um deles dois camelos carregados de ouro, prata e pedras preciosas e determinou-lhes gastar esses tesouros, em viagens pelo reino, durante três meses, com a obrigação de voltarem, logo após, a fim de que ele pudesse efetuar a escolha do príncipe que o sucederia no trono.

Findo o prazo estabelecido, os jovens regressaram à casa paterna.

Os dois mais velhos exibiam mantos riquíssimos e chegaram com enorme ruído de carruagens, mas o terceiro vinha cansado e ofegante, arrimando-se a um bordão qual mendigo, despertando a ironia e o assombro de muita gente.

O rei bondoso abençoou-os discretamente e dispôs-se a ouvi-los, perante compacta multidão.

O primeiro aproximou-se, fez larga reverência, e notificou:

- Meu pai e meu soberano, viajei em todo o centro do País e adquiri, para teu descanso, um admirável palácio, onde o teu nome será venerado para sempre.

Comprei escravos vigorosos que te sirvam e reuni, nesse castelo, digno de ti, todas as maravilhas de nosso tempo.

Dessa moradia resplandecente, poderás governar sempre honrado, forte e feliz.

O monarca pronunciou algumas palavras de agradecimento, mostrou amoroso gesto de aprovação e mandou que o segundo filho se adiantasse:

- Meu pai e meu rei! – exclamou, contente – trago-te a coleção de tapetes mais rica do mundo. Dezenas de pessoas perderam o dom da vista, a fim de tece-los. Aproxima-se da cidade uma caravana de vinte camelos, carregando essas preciosidades que te ofereço, ó augusto dirigente, para revelares tua fortuna e poder!...

O monarca expressou gratidão numa frase carinhosa e recomendou que o mais moço tomasse a palavra.

O filho mais novo, alquebrado e mal vestido, ajoelhou-se e falou então:

- Amado pai, não trouxe qualquer troféu para o teu trono venerável e glorioso...

Viajei pela terra que o Supremo Senhor te confiou, de Norte a Sul e de Leste a Oeste, e vi que os súditos esperam de teu governo a paz e o bem estar, tanto quanto o crente aguarda a felicidade da Proteção do Céu...

Nas montanhas, encontrei a febre devorando corpos mal abrigados e movimentei médicos e remédios, em favor dos sofredores.

Ao Norte, vi a ignorância dominando milhares de meninos e jovens desamparados e instalei escolas em nome de tua administração justiceira.
A Oeste, nas regiões pantanosas, fui surpreendido por bandos de leprosos e dei-lhes conveniente asilo em teu nome.

Nas cidades do Sul, notei que centenas de mulheres e crianças são vilmente exploradas pela maldade humana e iniciei a construção de oficinas em que o trabalho edificante as recolha.

Nas fronteiras, conheci inúmeros escravos de ombros feridos, amargurados e doentes, e libertei-os, anunciando-lhes a magnanimidade de tua coroa!...

A comoção interrompeu-o.

Fez-se grande silêncio e viu-se que o velho soberano mostrava os olhos cheios de lágrimas.

O rapaz cobrou novo ânimo e terminou:
- Perdoa-me se entreguei teu dinheiro aos necessitados e desculpa-me se regresso à tua presença envolvido em extrema pobreza, por haver conhecido, de perto, a miséria, a enfermidade, a ignorância e a fome nos domínios que o Céu conferiu às tuas mãos benfeitoras...

A única dádiva que te trago, amado pai, é o meu coração reconhecido pelo ensinamento que me deste, permitindo-me contemplar o serviço que me cabe fazer...

Não desejo descansar enquanto houver sofrimento neste reino, porque aprendi contigo que as necessidades dos filhos do povo são iguais às do filho do rei!...

O velho monarca, em pranto, muito trémulo, desceu do trono, abraçou demoradamente filho esfarrapado, retirou a coroa e colocou-a sobre a fronte dele, exclamando, solene:

- Grande Príncipe: Deus, o Eterno Senhor te abençoe para sempre! É a ti que compete o direito de governar, enquanto viveres.

A multidão aplaudiu, delirando de júbilo, enquanto o jovem soberano, ajoelhado, soluçava de emoção e reconhecimento.

(Néio Lúcio )

RISCOS

Rir é correr o risco de parecer tolo .
Chorar é correr o risco de parecer sentimental.
Estender a mão é correr o risco de se envolver.
Expor seus sentimentos é correr o risco de mostrar seu verdadeiro eu.
Defender seus sonhos e ideias diante da multidão é correr o risco de perder as pessoas.
Amar é correr o risco de não ser correspondido.
Viver é correr o risco de morrer.
Confiar é correr o risco de se decepcionar.
Tentar é correr o risco de fracassar.
Mas devemos correr os riscos, porque o maior perigo é não arriscar nada.
Há pessoas que não correm nenhum risco, não faz nada, não têm nada e não são nada.
Elas podem até evitar sofrimentos e desilusões, mas não conseguem nada, não sentem nada, não mudam, não crescem, não amam, não vivem .
Acorrentadas por suas atitudes, elas viram escravas, privam-se de sua liberdade.
Somente a pessoa que corre riscos é livre!
(Seneca)